TopInnovators – O Google também sabe copiar

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Innoscience

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Foi lançada nos últimos dias a primeira unidade da loja própria do Google. A Google Shop é uma “shop in shop” da marca onde a gigante de tecnologia pretende oferecer um espaço de experimentação de suas diferentes soluções dentro de uma loja de terceiros. James Elias, diretor de marketing do Google na Grã Bretanha, estabeleceu o objetivo da empresa com a nova loja: 

“O ritmo das inovações de devices que usamos é incrível ainda que a forma como os compramos tenha permanecido a mesma por anos. Nós queremos oferecer as pessoas um lugar que possam experimentar, jogar, brincar e aprender com todas as tecnologias que o Google oferece”

Ao analisar esse movimento estratégico do Google cabe 3 questionamentos:

a) Uma loja de experiências, para uma marca de alta tecnologia, é algo novo?

b) A proposta estabelece uma ruptura significativa em relação as abordagens praticadas?

c) A iniciativa tem potencial de resultado significativo? 

Não, esse movimento não é uma inovação. A Apple desenvolveu esse formato na indústria de tecnologia há mais de 10 anos. A primeira AppleStore foi aberta em 2001. Hoje são mais de 400 lojas.

Mas não é uma inovação para o Google? Algo novo para a sua empresa mas já praticado no seu mercado não é uma inovação. Desista. Nem tudo que a empresa faz de importante é inovação.

É visível que o Google pretende praticar o modelo inovador de canal de distribuição introduzido pela Apple. Mesmo que com o modelo de “shop in shop” não há uma mudança relevante na abordagem de canal entre esse formato e o que já fazem HP, Sony e, principalmente, Apple.

Apresentamos na Innoscience a matriz de inovação e melhoria que articula 4 movimentos:

  1. invenções
  2. melhorias
  3. adequações
  4. inovações – incrementais e radicais

Chamamos de Adequação aquilo que a empresa faz em resposta, cópia ou busca de equiparação de seus concorrentes. O Google se adequou montando a sua própria loja. Essa estratégia de brand experience store tem sido praticada em diferentes categorias de produto como luxo (louis vitton), chinelos (alpargatas), sapatos (melissa) serviços financeiros (ING Bank) o que pode ter sido uma fonte natural de inspiração ao inovador, no caso, a Apple para replicar tal modelo no setor de tecnologia.

Um dos temas recorrentes sobre os quais somos questionado refere-se ao conceito de inovação. Parece fácil identificar em retrospectiva uma inovação como o iPhone, Nespresso, RedBull ou mesmo o sistema de produção enxuta da Toyota na indústria automotiva. Ao discutir o que é inovação com nossos clientes, é comum que debatamos com os participantes os exemplos de suas empresas para testar se algo é ou não é inovação. Para fazer isso usamos a Matriz de inovação e Melhoria que desenvolvemos em 2008 na Innoscience.

Dias atrás, um executivo nos colocou um projeto da sua empresa para que pudéssemos responder se aquilo era ou não inovação. Preferimos realizar essa análise de forma estruturada e racional. Há muita bruxaria e misticismo no campo atualmente.

Inovação é o novo que tem impacto. A monetização de novas ideias. Nova ideia, execução e impacto.

É novo? O projeto se transformou em realidade? Trouxe resultado?

Esse entendimento é fundamental. Tive a oportunidade de trabalhar com empresas que consideravam como inovador tudo o que faziam. Uma das principais disfunções é considerar algo como “inovação para nossa empresa”. Esse conceito não existe. Considerar a própria empresa como referência não faz sentido. O que garante melhores resultados para a empresa inovadora é o fato de que ela cria um monopólio temporário. Domina uma oportunidade e, por consequência, gera resultado adicional, novos fluxos de caixa positivos por meio de redução do custo ou crescimento da receita. Isso depende de ter ou fazer o que os outros não conseguem.

Analisando esse fenômeno, um dos expoentes atuais do Vale do Silício, Peter Thiel, argumenta que o monopólio é produto de inovações que são 10x melhores que as alternativas existentes ou que criam uma categoria absolutamente nova que não tem comparativo. O Google Ads, sistema de search e Ads do Google, é uma inovação disruptiva. Responde por mais de 90% da receita da gigante de tecnologia o que garante para a empresa mais de 30% do mercado global de publicidade online.

Ok, a nova loja do Google não é algo novo nem mesmo na indústria de Tecnologia. Também não parece que vá criar um monopólio, mesmo que temporário.

Então quer dizer que o Google não deve abrir sua loja própria brand experience? Não. Significa que não é uma inovação. É uma Adequação, algo novo para a empresa e dominado pelo mercado.

Também indica que haverá informação disponível sobre a ideia para sua concepção e execução o que estabelece contextos absolutamente distintos das inovações que lidam com alta incerteza. Esse é o ponto.

Gerenciar inovações é um processo estruturado de redução de incertezas. As inovações precisam de processo, estrutura e, por vezes, modelos de negócios novos, especialmente, em grandes empresas. As Adequações permitem fazer benchmarks, aprender com os erros dos outros e acessar informações relevantes disponíveis.

Claro que o Google poderia tentar um modelo já testado e provado por sua concorrente. É uma adequação importante. Que pode trazer bons resultados. Mas que dificilmente irá colocar o Google a frente de seus concorrentes, no caso a Apple.Mesmo o Google precisa de adequações, melhorias e inovações incrementais para complementar seu modelo de negócio inovador. Que bom que um inovador como o Google nos ensina que nem tudo é inovação e que para ser inovação tem que ser realmente distinto do que está disponível.

Adequação e Inovação são movimentos que tem desafios gerenciais e resultados potenciais diferentes. Lembre-se disso.

Até a próxima inovação

Maximiliano Selistre Carlomagno